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Infidelidade: somos biologicamente feitos para trair?

Foto do escritor: Inês Santos Silva
Inês Santos Silva
28 de set.
5 min de leitura

Porque traímos? Há pessoas biologicamente mais predispostas à infidelidade? É possível amar alguém e continuar a sentir desejo por outras pessoas? E uma traição significa necessariamente o fim de uma relação?

Estas foram algumas das questões que me colocaram numa entrevista à Revista Máxima pela Jornalista Rita Silva Avelar.


O estudo citado por Justin Garcia neste artigo indica que pessoas com genes que otimizam o funcionamento das células recetoras de dopamina no cérebro, têm mais propensão para a infidelidade (e também para a dependência de álcool, drogas e jogo). Isto porque os níveis de dopamina altos estão associados a excitação e mais tendência para arriscar. O que pensa sobre isto? Há realmente pessoas biologicamente mais propensas à traição que outras?

Segundo o que o próprio autor refere, a biologia não é o nosso destino. Embora atue como fator predisponente, é fundamental entender que a genética não é o único determinante dos nossos comportamentos. A infidelidade é um fenómeno complexo que resulta da interação de múltiplos fatores: biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Há pessoas que podem ter uma maior tendência para procurar novidade, excitação ou risco, e isso pode estar relacionado com determinados mecanismos neurobiológicos, mas isso não significa que estejam “condenadas” a trair. Aquilo que vemos é que a infidelidade raramente acontece por uma única razão. Muitas vezes surge como uma forma de expressão de algo que a pessoa não consegue viver ou comunicar dentro da própria relação, e usam a infidelidade como uma tentativa de lidar com desejos pessoais, necessidades não verbalizadas, conflitos internos ou dificuldades na relação. Portanto, sim, podemos dizer que algumas pessoas podem ter uma base biológica que facilita a busca por excitação e o risco. Mas o facto de trair ou não depende também da personalidade, da qualidade da relação, dos limites de cada pessoa, dos valores do casal e das oportunidades contextuais. A biologia pode influenciar, mas não decide por nós.


Evoluímos, enquanto espécie, mais para a monogamia ou para a poligamia? E porque é que tanto temos tão presente o impulso para uma relação romântica forte e vinculativa como para a novidade sexual?

A monogamia, tal como a vivemos hoje, é muito influenciada por fatores sociais e culturais. Continua a ser vista como uma característica central das relações românticas, essencial para a confiança, segurança e estabilidade na relação. Mas a verdade é que o desejo de vinculação e o desejo de novidade sexual não são incompatíveis. Podemos querer uma relação amorosa forte, segura e duradoura e, ao mesmo tempo, sentir curiosidade, desejo ou atração por outras pessoas e isso não significa, por si só, que a relação esteja mal, significa que somos humanos. O que me parece mais importante é que cada casal possa decidir, de forma consciente, que tipo de relacionamento quer construir. Eu gosto muito de reforçar esta ideia em consulta: quanto mais seguro e próximo o casal estiver, mais confortável se sente para falar com o parceiro sobre aquilo que gostaria de introduzir na relação. Falar sobre fantasias, por exemplo, é algo ainda pouco frequente entre os casais, e eu compreendo porquê: no geral, fomos habituados a falar pouco sobre sexo, mesmo dentro dos relacionamentos, e falar de fantasias sexuais pode significar entrar em áreas muito íntimas da vida de cada pessoa. Também não acredito que os casais devem ser livros abertos e partilhar absolutamente tudo. Mas se existe uma fantasia, uma curiosidade ou uma vontade que a pessoa gostava de explorar dentro da relação, porque não falar sobre isso? O outro elemento pode até estar interessado em experimentar. E, quando não está, esta conversa também pode ser uma oportunidade de conhecer melhor os limites, desejos e vulnerabilidade de cada um.


A autora Esther Perel questiona com frequência estas questões. Será que a infidelidade pode existir de modo "saudável" num relacionamento amoroso? Ou essa condição é completamente incompatível?

Depende muito do que estamos a chamar de infidelidade. Se estamos a falar de uma relação baseada num acordo de exclusividade, então a infidelidade implica uma violação da confiança e dos compromissos assumidos e, nesse sentido, é incompatível com a saúde e estabilidade da relação, porque existe uma quebra de confiança. Mas acho importante separarmos duas coisas: sentir atração por outras pessoas e trair. Desde cedo, é-nos transmitida uma ideia muito romantizada de “alma gémea”, como se encontrar alguém para a vida significasse deixar de sentir desejo, atração ou curiosidade por outras pessoas. E isso não é realista. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir atração sexual ou romântica por outra pessoa, isso é o mais normativo que existe. A questão essencial é o que fazemos com isso. A monogamia é, ou pelo menos devia ser, uma escolha consciente entre os dois elementos do casal. E, como tal, devia implicar uma conversa clara sobre os limites da relação: O que é aceitável? O que não é? O que cada um considera uma traição? Onde começa a quebra de confiança? Mas, normalmente, os casais não têm esta conversa. Partimos do princípio de que ambos têm exatamente a mesma definição de infidelidade mas muitas vezes não têm. Para algumas pessoas, pode envolver pensamentos sexuais ou românticos por outra pessoa. Para outras, ver pornografia às escondidas, trocar mensagens, dançar de forma íntima, beijar, marcar encontros ou ter relações sexuais fora da relação. Por isso, a questão não é normalizar a infidelidade, mas sim normalizar as conversas sobre este assunto.


Será que o ser humano vai evoluir para uma normalização da infidelidade, ou cresce-se em direção contrária? Qual a sua opinião?

Não acredito que a infidelidade venha a ser normalizada. A traição está associada a uma rutura, a uma quebra de confiança e, muitas vezes, a um sofrimento emocional muito significativo que para algumas pessoas pode mesmo deixar traumas profundos. Por isso não me parece desejável nem saudável normalizar a infidelidade como se fosse algo sem impacto. O que acho que pode, e deve, ser normalizado é a conversa sobre a complexidade das relações. Apesar da expectativa social da monogamia, sabemos que a infidelidade é muito prevalente. Tendo isto em consideração, podemos viver relações mais saudáveis se falarmos mais sobre elas. Se definirmos melhor o nosso acordo dentro da relação, deixando claro o que significa fidelidade para cada um e normalizar que vai haver momentos de atração por outras pessoas, sem que isso tenha de significar automaticamente uma ameaça à relação.


Por fim, trair é sempre uma associação negativa. As traições quase sempre ditam o fim das relações?

A traição tem, inevitavelmente, uma associação negativa, sim. Há uma quebra importante na confiança no parceiro e na própria relação, e uma ameaça aos alicerces sobre os quais o relacionamento deveria prosperar - a confiança, a segurança e a confiança mútua. Agora, nem sempre dita o fim da relação. A traição pode funcionar como uma chamada de atenção de que a relação precisa de uma intervenção urgente. Não estou com isto a dizer que a traição é “necessária” ou “positiva”, mas sim que, quando acontece, pode abrir uma oportunidade de trabalho sobre a relação e até crescimento nesse processo. Ao mesmo tempo que é um dos principais motivos de separação, a infidelidade é também uma das razões frequentes pelas quais os casais procuram terapia. A intervenção pode ajudar o casal a compreender a rutura, a decidir se quer ou não continuar, e, quando essa é a vontade de ambos, a restaurar a qualidade do compromisso e da relação. 


Este artigo resulta de uma entrevista originalmente publicada na Revista Máxima, aqui reproduzida e adaptada para a NOISE.


Para saber mais recomendo o livro (In)Fidelidade, repensar o amor e as relações, de Esther Perel



 
 
 

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