Desejo sexual na menopausa: é tudo uma questão de testosterona?
Cerca de metade das mulheres na menopausa referem ter problemas sexuais, sendo a diminuição do desejo uma das queixas mais frequentes em consulta.
Quando isto acontece, é fácil procurar uma explicação hormonal: “será falta de testosterona?”
As alterações hormonais que acontecem durante a menopausa podem, de facto, ter impacto na sexualidade. Mas o desejo sexual é mais complexo do que isso.
O que pode estar a interferir com o desejo?
O desejo sexual não depende apenas das hormonas.
A dor ou secura vaginal, o cansaço, as alterações do sono, algumas doenças crónicas e medicamentos podem interferir com a sexualidade. Mas também o stress e a ansiedade, a forma como nos sentimos em relação ao nosso corpo, a relação com o parceiro e o próprio contexto de vida.
Por isso, quando abordamos a diminuição do desejo na menopausa, não podemos olhar apenas para um fator.
A testosterona pode estar indicada em algumas mulheres com perturbação do desejo sexual hipoativo, depois de avaliadas outras possíveis causas e otimizada a terapêutica hormonal quando indicada. Mas pode não ser suficiente quando existem outros fatores a colocar um “travão” no desejo.
E perceber quais são esses travões é uma parte importante da abordagem.
O desejo não tem de aparecer “do nada”
Uma das primeiras coisas que explico em consulta é que o desejo sexual não tem de surgir sempre espontaneamente. Estamos habituados à ideia de que primeiro temos desejo e só depois procuramos contacto sexual. Mas nem sempre funciona assim.
Para muitas pessoas, o desejo é responsivo: pode surgir depois de começar o contacto íntimo, dos beijos, das carícias ou da estimulação.
Uma forma simples de compreender isto é pensar numa balança. De um lado temos os fatores que facilitam a excitação — os nossos “turn ons”. Do outro, os fatores que a inibem — os “turn offs”.
Dor, cansaço, stress, preocupação, insegurança com o corpo ou conflitos na relação podem pesar no lado dos travões. Prazer, estimulação adequada, intimidade, contexto, disponibilidade mental ou sentirmo-nos confortáveis com o nosso corpo podem pesar do outro lado.
Por vezes, a solução não passa apenas por tentar aumentar aquilo que nos “liga”, mas também por perceber o que está a colocar o pé no travão.
Quando existe secura ou desconforto
É difícil esperar que exista desejo por uma experiência que antecipamos como desconfortável ou dolorosa. Quando existe secura vaginal, o aumento da fricção pode provocar desconforto ou dor durante a penetração e tornar mais difícil sentir excitação e prazer.
A utilização de um lubrificante adequado pode tornar a atividade sexual mais confortável e prazerosa.
Os lubrificantes à base de água são geralmente bem tolerados e podem ser utilizados em diferentes contextos, incluindo com a maioria dos brinquedos sexuais. No entanto, tendem a secar mais rapidamente e podem precisar de ser reaplicados.
Os lubrificantes à base de silicone duram mais tempo, necessitam habitualmente de menor quantidade e menos reaplicações e podem ser utilizados no banho.
Mas se existe dor ou secura vaginal persistente, o lubrificante não deve ser a única resposta. É importante perceber a causa e avaliar se existe necessidade de tratamento específico.
Adaptar o sexo ao corpo
O nosso corpo muda ao longo da vida e a nossa sexualidade pode precisar de se adaptar com ele.
Quando existe dor pélvica ou dor musculoesquelética associada, por exemplo, a uma doença crónica, experimentar posições que permitam maior controlo sobre a profundidade, o ritmo e o movimento pode tornar a atividade sexual mais confortável.
Quando existe dor com a penetração profunda, podem também ser úteis dispositivos que limitam a profundidade da penetração, como alguns anéis colocados na base do pénis.
Adaptar não significa desistir de uma vida sexual satisfatória. Significa encontrar formas de continuar a ter prazer que façam sentido naquele momento.
E se for necessária mais estimulação?
Algumas mulheres podem sentir alterações na sensibilidade genital ou perceber que precisam de mais tempo ou de uma estimulação mais intensa para atingir o orgasmo.
Isso não significa que exista alguma coisa errada.
Vibradores e estimuladores do clitóris podem ser úteis precisamente porque permitem aumentar e manter a intensidade da estimulação. E esta pode também ser uma oportunidade para explorar outras formas de prazer.
Sexo não é sinónimo de penetração
Quando existe dor, retirar temporariamente a penetração do centro da relação sexual pode ser particularmente importante.
Se todas as experiências sexuais terminam numa atividade que provoca desconforto, é natural que o corpo comece a antecipar essa experiência e que o desejo diminua.
Beijos, carícias, masturbação a dois, sexo oral, massagem ou utilização de brinquedos sexuais são também formas de intimidade e atividade sexual.
Retirar a obrigação de chegar à penetração pode permitir voltar a dar espaço à excitação, ao prazer e à intimidade.
Estar presente também se treina
Durante o sexo, nem sempre estamos realmente concentrados naquilo que estamos a sentir.
Podemos estar a pensar no nosso corpo, no que o parceiro está a pensar, no trabalho do dia seguinte ou simplesmente ter dificuldade em desligar.
Alguns estudos sugerem que o mindfulness pode ser uma ferramenta complementar útil na abordagem de algumas dificuldades sexuais.
O objetivo não é “esvaziar a cabeça”, mas aprender a reconhecer quando a atenção se afasta da experiência e conseguir trazê-la novamente para as sensações do corpo, para o toque e para o prazer.
Quando procurar ajuda?
Quando a diminuição do desejo provoca sofrimento, interfere com a relação ou se mantém ao longo do tempo, pode ser importante procurar ajuda.
Numa consulta de Sexologia é possível avaliar não apenas as hormonas, mas também a presença de dor ou secura vaginal, doenças, medicamentos, sono, saúde mental, relação, contexto de vida e a própria experiência sexual.
Bibliografia
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