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Infertilidade e sexualidade: quando tentar engravidar muda o sexo

Foto do escritor: Inês Santos Silva
Inês Santos Silva
28 de set.
5 min de leitura

Quando pensamos em fertilidade, é natural pensarmos em ovulação, espermograma, exames, probabilidades, idade, tratamentos e resultados. E tudo isso é importante. Mas há uma parte que muitas vezes fica menos visível: o impacto que tentar engravidar pode ter na sexualidade.


Quando o sexo passa a ter um objetivo

Ao longo da vida, os motivos que nos levam a ter relações sexuais vão mudando: por prazer, para aumentar a intimidade, por diversão, por rotina ou simplesmente para nos sentirmos próximos do nosso parceiro. Os motivos são muitos e variam consoante a fase da vida em que estamos, o contexto e a relação.


Quando um casal começa a tentar engravidar, entra um motivo novo: queremos ter um filho.

E não há nada de errado nisso. O problema pode surgir quando esse passa a ser o único motivo. Quando o sexo fica muito centrado no resultado, pode deixar de ser vivido como um espaço de prazer e encontro e passar a ser vivido como uma tarefa.

Uma pergunta simples que pode ser útil nesta fase é: Estamos a ter sexo apenas para engravidar ou continua a existir espaço para prazer, proximidade e namoro?


Não tem de haver sempre tudo ao mesmo tempo. Mas é importante que a sexualidade não fique reduzida apenas ao objetivo reprodutivo.


Sexo programado: o problema é mesmo planear?

Quando o sexo passa a ser marcado pela ovulação, há uma mudança importante: deixa de acontecer apenas porque existe desejo naquele momento e passa a acontecer porque “é o dia certo”, isto pode ser difícil para os dois: A pessoa que ovula pode sentir que o corpo está constantemente a ser monitorizado e parceiro pode sentir que é chamado quase para cumprir uma função.


A questão é que planear o sexo não é, por si só, mau. Na consulta de sexologia usamos, muitas vezes, o planeamento como parte do tratamento de diferentes dificuldades sexuais, o problema é quando o planeamento elimina completamente a dimensão erótica.


O que podemos fazer de diferente?

  • Mudar a forma como falamos sobre sexo: é diferente dizer “temos de ter relações hoje porque estou a ovular” do que “esta é uma fase importante do ciclo, como podemos criar um momento nosso?”, a informação é a mesma, mas a forma como entra na relação é muito diferente.

  • Combinar a parte prática com a parte relacional: criar contexto, desligar os telemóveis e a televisão, preparar um jantar, tomar banho juntos ou experimentar algo diferente.

  • Manter o contacto físico fora da janela fértil: continuar a tocar, beijar, namorar e ter momentos de intimidade que não tenham obrigatoriamente de terminar em penetração.


Também é importante lembrar que o desejo não aparece sempre de forma espontânea. Para muitas pessoas, precisa de contexto: segurança, disponibilidade emocional, conexão e tempo. Quando existe pressão, ansiedade ou medo de falhar, pode haver menos desejo, menor excitação, dificuldade de ereção ou ejaculação, menos lubrificação, dificuldade em atingir o orgasmo ou até dor.

Em muitas pessoas, o desejo é responsivo: pode aparecer depois do toque, da proximidade ou da excitação ter começado. Por isso, em vez de esperar que o desejo apareça “do nada”, pode ser mais útil criar condições para que ele apareça.


Quando uma dificuldade sexual interfere com a fertilidade

Falamos muito de fertilidade como se fosse apenas uma questão de ovulação, trompas, espermatozóides ou tratamentos. Mas, para existir uma gravidez espontânea, na maioria dos casos, é necessária uma relação sexual com penetração vaginal e ejaculação intravaginal durante uma fase fértil do ciclo. Pode parecer básico mas, na prática, nem sempre acontece.


Há casais que estão a tentar engravidar mas têm relações sexuais muito pouco frequentes. Outros evitam a penetração porque existe dor. Pode também haver dificuldade em manter uma ereção, ejaculação muito retardada ou mesmo ausência de ejaculação, baixo desejo ou uma ansiedade de desempenho tão grande que o sexo se torna particularmente difícil, precisamente nos dias férteis.


Por isso, algumas dificuldades sexuais podem contribuir diretamente para a dificuldade em engravidar. Mas a relação também funciona no sentido contrário.


A infertilidade, ou simplesmente a pressão para engravidar, pode desencadear ou agravar dificuldades sexuais.

Um homem que nunca teve dificuldade de ereção pode começar a tê-la quando sente que “tem de conseguir” naquele dia. Uma mulher que já tinha algum desconforto com a penetração pode passar a ter mais dor quando o sexo se torna obrigatório. Um casal que tinha uma vida sexual satisfatória pode começar a evitar o sexo porque este ficou associado a frustração, falha ou tensão.


É, sobretudo, importante que os casais saibam que as dificuldades sexuais não devem ser escondidos por vergonha. São problemas clínicos frequentes e têm tratamento. Quanto mais cedo forem falados, mais cedo podem ser abordados e tratados.


Quando o corpo passa a ser um corpo “médico”

Os tratamentos de infertilidade podem acrescentar uma nova dimensão a tudo isto.

De repente, o corpo entra num circuito muito médico: consultas, ecografias, análises, medicação, procedimentos, datas e resultados. Quando o corpo passa a ser tão observado e intervencionado, pode tornar-se mais difícil senti-lo como um corpo erótico. A pessoa pode começar a sentir-se mais paciente do que parceira.


Também é frequente o casal entrar em “modo projeto”: há um objetivo, um plano, uma estratégia, etapas e resultados. Este modo pode ser útil para organizar um processo que é exigente. Mas pode deixar pouco espaço para namoro, leveza e prazer.


Muitos casais acabam por viver, mesmo que nunca o digam desta forma, com a ideia de que “quando isto acabar, voltamos a nós”. O problema é que “isto” pode durar meses ou anos. E a relação não pode ficar totalmente em pausa à espera do resultado final.


Durante os tratamentos de infertilidade, o objetivo não tem necessariamente de passar por manter “a vida sexual de sempre”. Em determinados momentos, isso pode não ser realista. Mas pode passar por, simplesmente, manter algum tipo de ligação: tocar, conversar, dormir abraçados, ter momentos em que não se fala de fertilidade, manter intimidade sem penetração ou prazer sem objetivo reprodutivo.


Falar sobre o que está a acontecer

O casal não está apenas a lidar com sexo e fertilidade. Está também a lidar com frustração, medo, esperança, cansaço e, por vezes, sentimentos de rejeição.

Dizer “hoje não me apetece” durante a janela fértil pode ser particularmente difícil. A outra pessoa pode ouvir “não queres tanto isto como eu” ou “estás a estragar a nossa oportunidade”, quando aquilo que está a ser dito pode significar simplesmente “estou cansado”, “sinto-me pressionado” ou “tenho medo de falhar”.

Por isso, estas conversas devem acontecer, sempre que possível, fora do momento sexual. Não à noite, no dia da ovulação, quando um quer ter relações sexuais e o outro não.

Num momento neutro, pode ser mais fácil perguntar: “Como é que estamos a viver isto?” ou “O que podemos fazer para esta fase pesar menos na nossa relação?”

Também pode ser útil combinar que nem toda a intimidade tem de terminar em penetração. Isto ajuda a retirar pressão e permite que o toque volte a estar associado a prazer e proximidade, e não apenas à obrigação de engravidar.


O que importa reter:


A sexualidade pode mudar quando se tenta engravidar. Isso, por si só, não significa que exista alguma coisa errada com a pessoa ou com o casal.


O sexo com o objetivo de engravidar não precisa de apagar completamente o sexo enquanto fonte de prazer, intimidade e encontro.


As dificuldades sexuais não devem ser escondidas por vergonha. Dor, dificuldade de ereção, alterações da ejaculação, baixo desejo ou evitamento sexual são problemas frequentes e podem ser abordados.


Não existe uma forma perfeita de viver este processo. Alguns casais vão geri-lo bem, outros vão precisar de mais apoio e muitos terão fases melhores e fases mais difíceis. O objetivo não é fazer tudo certo. É não se perderem um do outro no meio do processo.



Bibliografia:

Berger, Michael H., et al. "Association between infertility and sexual dysfunction in men and women." Sexual medicine reviews 4.4 (2016): 353-365.

Shin, David, et al. "Sexual dysfunctions in male patients with infertility: recommendations from the Fifth International Consultation for Sexual Medicine (ICSM 2024)." Sexual Medicine Reviews 14.1 (2026): qeaf073.



 
 
 

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