top of page

Os mitos que moldam a nossa sexualidade

Foto do escritor: Inês Santos Silva
Inês Santos Silva
28 de fev.
5 min de leitura

Atualizado: 18 de mar.

“Today’s myths will be tomorrow’s archaisms,

and armed with the right messaging and storytelling,

we have never been closer to finally discarding them.'”

Esta frase do livro Losing It, de Sophia Smith Galer, ficou comigo.


Apesar de toda a evolução científica, muitos dos mitos que rodeiam a sexualidade continuam profundamente enraizados na nossa cultura.


A medicina evolui.

A ciência avança.

Mas os mitos persistem.


Ao longo desta série procurei desmontar os mitos apresentados neste livro, que recomendo vivamente pela forma rigorosa e acessível como expõe construções culturais que continuam a ser tratadas como verdades biológicas. A partir dessas narrativas, trouxe a reflexão para a prática clínica e para aquilo que observo diariamente em consulta.


  1. O mito da virgindade

    A 'virgindade' não é um diagnóstico médico, não é um estado físico, nem uma condição anatómica, é uma construção cultural, que continua a ser usada para controlar, julgar e condicionar sobretudo a sexualidade feminina.

    A ideia de 'perder a virgindade' baseia-se numa visão heteronormativa e penetrativa da sexualidade que ignora a diversidade de experiências sexuais.

    O que influencia a primeira experiência sexual - chamemos-lhe antes assim - não é um suposto 'estado de virgindade' mas sim o nível de educação sexual, o consentimento, a segurança emocional e o conhecimento do próprio corpo.

    A virgindade não é algo que se possa 'perder', nem algo que se possa 'oferecer' a alguém. Talvez a pergunta a fazer não seja: "Já fizeste?"; mas antes: "Foi seguro?", "Foi desejado?", "Foi teu?".

    A sexualidade não começa quando algo se perde, começa quando existe essa escolha, com segurança e consentimento.


  1. O mito do consentimento

    Bem-estar sexual inclui sentir-se seguro, respeitado e com autodeterminação na própria vida sexual, não apenas a ausência de violência ou coerção explícita.

    O consentimento não é silêncio, não é ausência de resistência, não é “não disse que não”. Muitas pessoas relatam ter tido relações por pressão emocional, medo de conflito, receio de magoar o outro ou por uma obrigação implícita dentro da relação, mesmo sem terem desejado verdadeiramente aquele contacto. Essa experiência deixa marcas.

    Consentimento não é ceder para evitar discussões, não é continuar “porque já começámos", não é sentir que “numa relação é suposto”. Consentimento é vontade ativa, é desejo presente, é liberdade para mudar de ideias, é segurança para dizer “não” sem medo de rejeição, culpa ou consequências. E é reversível, mesmo a meio.

    Consentimento real não nasce do medo, nasce da liberdade.


  2. O mito da virilidade

    O mito da virilidade ensina que o 'verdadeiro homem' está 'sempre pronto'.

    Na minha consulta vejo diariamente as consequências dessa narrativa. Homens que chegam envergonhados, que pedem desculpa antes de falar e que usam palavras como “falhei”, ou “algo está errado comigo”.

    Muitos não vêm apenas por uma questão de ereção. Vêm por ansiedade, por medo de desiludir, medo de perder a relação. Por acreditarem que o seu valor está diretamente ligado ao desempenho sexual.

    A verdade é que a variabilidade da ereção é fisiológica. O desejo oscila, como resposta ao stress, ao cansaço, à saúde mental e à qualidade da relação. No entanto, o mito diz-lhes que isso é fraqueza, e esse peso é silencioso.

    Vejo muitos homens que evitam a intimidade por medo de “não corresponder” e que entram num ciclo de ansiedade de desempenho. O sexo passa a ser um 'teste' e não um encontro, um momento de prazer.

    Normalizar a variabilidade da resposta sexual pode ser libertador e profundamente terapêutico. Quando retiramos o peso da performance, estamos a abrir espaço para algo mais saudável: presença, comunicação e intimidade real.


  3. O mito do hímen

    O hímen é uma estrutura que faz parte da anatomia normal das pessoas com vulva. Consiste num fino anel de tecido que se encontra à entrada da vagina, com formas e elasticidade muito variáveis. Não 'fecha' a vagina, não desaparece após a primeira experiência sexual penetrativa e muitas vezes não sangra.

    Em muitas culturas acredita-se que o hímen é uma 'membrana intacta' que se rompe na primeira penetração e que o sangramento comprova a virgindade. Esta ideia, para além de não ter base científica, pode ter consequências.

    A expectativa de que “vai romper” cria medo e este medo gera tensão muscular, que por sua vez pode gerar dor. Mas muitas das dores associadas à primeira relação penetrativa não resultam de um “rompimento do hímen”, mas sim de ansiedade, falta de excitação adequada, ausência de preparação ou pressão emocional. É simples, se ensinamos que algo “tem de doer”, o corpo aprende a defender-se.

    A dor não é um ritual de passagem nem uma 'prova de entrega'. Dor persistente associada à penetração não é normal e sangramento recorrente também não. Ambos devem sempre motivar avaliação médica.


  4. O mito do Tightness

    Existe uma ideia de que a vagina “alarga” com a frequência das relações sexuais, como se o corpo feminino guardasse memória do número de parceiros. Isto não é verdade: a vagina é um órgão muscular e elástico, concebido para expandir e contrair consoante a excitação sexual - nesta fase, ocorre um fenómeno chamado tenting: os músculos relaxam, o canal vaginal alonga-se e alarga-se para permitir penetração confortável.

    A perceção de “aperto” está muito mais relacionada com tensão muscular, ansiedade ou excitação insuficiente do que com experiência sexual prévia. Quando ensinamos que “quanto mais apertado, melhor”, estamos a transformar desconforto em virtude e a associar prazer masculino a possível dor feminina.

    Normalizar o “aperto” é, muitas vezes, normalizar a dor.


  5. O mito da penetração

    O prazer feminino está frequentemente associado à estimulação clitoriana. Quando reduzimos o sexo à penetração, invisibilizamos a anatomia, a diversidade e a comunicação sexual. Penetração não é sinónimo de prazer.

    Sabias que o sexo penetrativo dura em média 5,4 minutos e a mulher demora em média 13,46 minutos até atingir o orgasmo? Ainda assim, ensina-se que 'sexo é penetração', e tudo o resto passa a ser acessório, "preliminares". Quando definimos sexo e penetração como sinónimos o clítoris é reduzido a 'um detalhe' e o orgasmo feminino torna-se opcional.

    Vejo em consulta mulheres que acreditam que “têm dificuldade em atingir o orgasmo”, quando na verdade o que lhes falta não é capacidade, é a estimulação adequada. Vejo casais que nunca falaram sobre isto, porque cresceram com a ideia de que o sexo tem um guião fixo. Uma experiência que devia ser equitativa deixa de o ser, sem que muitas vezes nos apercebamos.

    Estimulação não-penetrativa não é “antes do sexo”. É sexo.


  6. O mito da Sexlessness

    Em 2018, foi descrita uma “recessão sexual” entre jovens adultos. Mas menor frequência sexual pode refletir maior autonomia, critérios mais definidos e redefinição de prioridades.

    A frequência sexual não define saúde, sucesso relacional ou valor individual.

    Vivemos numa cultura que tanto hipersexualiza como estigmatiza. Nem todas as pessoas desejam sexo com a mesma frequência e isso pode ser absolutamente saudável.

    Mais liberdade → Mais escolha

    Mais informação → Mais critérios

    Menos sexo compulsivo → Mais consentimento real

    Talvez a liberdade sexual não produza mais sexo. Produza melhor escolha.


**


Questionar mitos não é apenas um exercício académico. É uma forma de reduzir culpa, corrigir desinformação e melhorar a forma como vivemos a intimidade. Grande parte do sofrimento que observo em consulta não nasce de um problema médico, mas de expectativas construídas sobre narrativas culturais tratadas como verdades biológicas.

Foi precisamente isso que encontrei em Losing It, um livro que recomendo pela forma rigorosa e acessível como expõe essas construções. Compreender a origem destes mitos é um passo essencial para promover uma vivência sexual mais informada, mais equitativa e mais consciente.


 
 
 

Comentários


bottom of page